
- Sua vida antiga terminou quando vestiu o negro - sua ave
soltou um eco rouco. "Negro." Mormont não lhe prestou
atenção. - O que quer que façam em Porto Real, não nos diz
respeito - como Jon não respondeu, o idoso homem terminou
o vinho e disse: - Está livre para sair. Não vou precisar mais
de você hoje. De manhã, poderá ajudar-me a escrever a tal
carta.
Mais tarde, Jon não tinha memória de ter se levantado ou
saído do aposento privado. Quando caiu em si, descia os
degraus da torre, pensando. É meu pai, são minhas irmãs,
como é que pode não me dizer respeito?
Lá fora, um dos guardas olhou para ele e disse:
- Força, rapaz. Os deuses são cruéis. Eles sabem, Jon
compreendeu.
- Meu pai não é traidor nenhum - disse em voz rouca. Até as
palavras ficavam presas na garganta, como que para sufocá-
lo. Estava levantando vento e parecia estar mais frio no pátio
do que quando entrara. O verão dos espíritos aproximava-se
do fim.
O resto da tarde passou como num sonho. Jon não poderia
dizer por onde caminhara, o que fizera, com quem falara.
Fantasma esteve com ele, ao menos isso sabia. A presença
silenciosa do lobo gigante deu-lhe conforto. As meninas nem
isso têm, pensou. Seus lobos poderiam tê-las mantido a salvo,
mas Lady está morta e Nymeria, perdida, e elas estão
completamente sós,
Um vento do norte começara a soprar quando o sol desceu no
horizonte. Jon ouvia-o uivar contra a Muralha e sobre as
ameias geladas enquanto se encaminhava para a sala comum
para a refeição da noite. Hobb fizera um espesso guisado de
veado com cevada, cebola e cenoura. Quando despejou uma
porção extra no prato de Jon e lhe deu uma ponta de pão,
entendeu o que isso queria dizer. Ele sabe, Olhou em volta da
sala, viu cabeças que se viravam depressa, olhos polidamente
desviados. Todos eles sabem.
Os amigos convergiram na sua direção.
- Pedimos ao septão para acender uma vela pelo seu pai -
disse-lhe Matthar.
- É mentira, todos sabemos que é mentira, até o Grenn sabe
que é mentira - acrescentou Pyp. Grenn confirmou com a
cabeça, e Sam agarrou a mão de Jon.
- Você é agora meu irmão, portanto, ele é também meu pai -
disse o rapaz gordo. - Se quiser ir até os represeiros e orar aos
deuses antigos, irei com você.
Os represeiros ficavam para lá da Muralha, mas Jon sabia que
Sam era sincero. São meus irmãos, pensou. Tanto como
Robb, Bran e Rickon...
E então ouviu a gargalhada, afiada e cruel como um chicote,
e a voz de Sor Alliser Thorne.
- Não basta ser bastardo, é bastardo de um traidor - dizia aos
homens que o rodeavam. Num piscar de olhos Jon tinha
saltado para cima da mesa, de punhal na mão. Pyp tentou
agarrá-lo, mas ele libertou a perna e correu a toda velocidade
pela mesa e arrancou a tigela da mão de Sor Alliser com um
pontapé. Saltou guisado para todo o lado, salpicando os
irmãos. Thorne recuou. Soavam gritos, mas Jon Snow não os
ouvia. Atacou o rosto de Sor Alliser com o punhal, mirando
naqueles frios olhos de ônix, mas Sam atirou-se no meio dos
dois e, antes que Jon conseguisse acertá-lo, Pyp saltou sobre
suas costas, agarrando-se como um macaco, e Grenn segurou
seu braço enquanto Sapo lhe arrancava a faca das mãos.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de o terem escoltado até
sua cela, Mormont desceu para visitá-lo, com o corvo ao
ombro.
- Disse-lhe para não fazer nada de estúpido, moço -
resmungou o Velho Urso. "Moço", papagueou o pássaro.
Mormont abanou a cabeça, desgostoso. - E pensar que tinha
grandes esperanças para você.
Tiraram-lhe a faca e a espada e disseram-lhe que não devia
deixar a cela até que os grandes oficiais se reunissem para
decidir o que fariam com ele, E depois colocaram um guarda à
sua porta para se assegurarem de que obedeceria. Os amigos
não estavam autorizados a visitá-lo, mas o Velho Urso cedeu
e o deixou ficar com Fantasma; portanto, não estava
completamente só.
- Meu pai não é traidor nenhum - disse ao lobo selvagem
quando os outros se foram. Fantasma o olhou em silêncio.
Jon deixou-se cair, encostado à parede, com as mãos em volta
dos joelhos, e fixou os olhos na vela que estava sobre a mesa
ao lado de sua cama estreita. A chama oscilou e tremeluziu, as
sombras moveram-se à sua volta, a sala pareceu ficar mais
escura e mais fria. Esta noite não vou dormir, Jon pensou.
Mas deve ter adormecido. Quando acordou, sentia as pernas
rígidas e com cãibras, e a vela há muito ardera por completo.
Fantasma estava em pé sobre as patas traseiras, arranhando
a porta. Jon ficou surpreso ao ver como o animal estava alto,
- Fantasma, o que se passa? - disse em voz baixa. O lobo
selvagem virou a cabeça e o olhou, mostrando as presas num
rosnido silencioso. Terá enlouquecido?, Jon perguntou a si
mesmo. -Sou eu, Fantasma - murmurou, tentando não
mostrar medo na voz. Mas estava tremendo, e violentamente.
Quando o ar ficara tão frio?
Fantasma afastou-se da porta. Havia profundos sulcos onde
ele raspara a madeira. Jon o observou com uma inquietação
crescente.
- Há alguém lá fora, não há? - sussurrou. Apertando-se contra
o chão, o 